COZINHANDO

Se eu acho que precisa de mais água, fica empapado. Se eu acho que já está cozido, vai cru para a mesa. É, sou uma negação na cozinha. Não sei, não gosto. Há alguns anos, pensei que precisava aprender a cozinhar, e fiquei um ano sem empregada. Sobrevivemos, eu e os filhos. Sérgio não almoçava em casa, então ele estava a salvo. Passado o ano de experiência, voltei a ter uma pessoa para cuidar do que vai para a mesa todos os dias. Que alívio! Para mim e para os que comiam minha gororoba.

Sempre viajamos muito, então as férias da empregada coincidiam com as nossas. Este ano, porém, as coisas mudaram. Apenas uma saída rápida em janeiro. Dani ficou, então a Maria José não tirou férias junto conosco. No mês passado, ela falou que queria viajar, queria tirar os 30 dias a que tem direito. Pânico! E, para agravar a situação, agora o Sérgio almoça em casa.

Bem, o que não tem remédio, remediado está. Lá se foi a Maria José descansar, não sem antes combinar com uma das amigas dela para vir duas vezes por semana fazer faxina e cuidar da roupa. Já é um alívio imenso! A comida, porém…

Mas, acredita que até tenho me saído bem? Vou inventando umas coisas, juntando um pouco disso e daquilo. Hoje, estava programado: macarrão com atum. Fui pegar o atum e… nada de atum. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se. Cheguei na janela do escritório do Sérgio e comuniquei:

– Agora a vaca foi pro brejo. O atum acabou!

Flávia, que ontem tinha dito que ia inventar alguma coisa hoje, voltou atrás. E lá fui eu. Afinal, sou ou não sou a rainha do lar?

Lembrei-me de um bacon que estava no freezer. Bacon, milho, requeijão, maionese, creme de leite = molho de macarrão. Massa cozida, molho por cima. E não é que deu certo?

O fato é que a gente aprende a fazer as coisas. Deus nos criou inteligentes. Duvido que um dia vá ter a culinária como um hobby. Sei lá, pode até acontecer. Acontece cada coisa na vida da gente! Mas, mesmo que nunca venha a gostar, o fato é que fico feliz de ver que sou capaz de misturar umas coisas, colocar na panela e encher a barriga da família. Será que algum dia vou ter que fritar bife? Isso eu nunca fiz…

Para ser totalmente honesta, há um prato que eu faço, que faz sucesso na família. Falei sobre ele em outro post, O macarrão da tia Cláudia. Quem sabe vai surgir, neste mês na cozinha, outro prato que vai ficar tão famoso quanto ele?

NÃO DÁ PRA PIORAR

Já que aceitei o desafio, tenho que ir em frente. Comentei sobre o desafio no post Fale Sobre Você. A tarefa de hoje: escrever sobre um tema apresentado no Daily Prompt, que é uma frase, ou uma expressão, a partir da qual temos que escrever um post. Na verdade, essa tarefa era do dia 30.4, mas eu não estava passando bem naquele dia, então vai hoje. E o título é: Worst Case Scenario. A tradução literal é A Pior Situação Possível.

Poderia apresentar várias situações trágicas e tristes, mas acho melhor partir para o humor. Já há tragédia demais na vida, e eu tenho achado meu blog muito sério nos últimos tempos.

O fato é que sempre que a gente pensa que uma coisa não pode piorar, ela acaba achando um jeito de ficar mais complicada.

Por exemplo: eu e minhas primas de São Paulo éramos adolescentes. Naquele tempo de férias escolares bem lonnnnnngas, elas passavam muitos dias aqui em Brasília, e eu também ficava bastante tempo na casa delas, em SP. Lá, o quarto delas tinha janela para o fundo da casa. Daquele quadrado mágico, avistávamos umas casas na outra rua, que ficava num nível mais baixo, depois de um espaço coberto de vegetação. Descobrimos dois rapazes que ficavam muito tempo na frente da casa deles, mexendo no carro. Logo os batizamos de Barbicha e Bigodé (isso mesmo, oxítona). Nunca soubemos o nome dos dois. Evidente que um usava uma barbichinha e o outro tinha bigode. Não sei se eram bonitos, porque a distância não permitia identificarmos os traços. Um dos rapazes era meu e o outro, da Lílian. Acho que o meu era o Bigodé, mas não tenho certeza. Ficávamos debruçadas na janela, falando alto, tentando chamar a atenção deles. Pelo tempo que passavam na frente da casa, acredito que os dois repararam em nós, e gostavam da atenção.

Fomos ficando ousadas. Falávamos mais alto, tentávamos nos comunicar com eles. Se voltávamos para casa de carro, pedíamos para o motorista – Solange ou Waldo – dar um jeito de passar pela rua deles (nem eu nem Lílian dirigíamos ainda).

Certo dia, tomadas da coragem suprema, resolvemos passar na frente da casa deles de bicicleta. Problema: só havia UMA bicicleta. Monareta:

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Bonitinha, né? Não era essa, peguei a foto na internet, mas era igual. Repare num detalhe: a garupa fica bem abaixo do banco do “motorista”. Esse fato é importantíssimo na tragédia que vou narrar.

Deixando de lado todas as leis da física, decidimos que Lílian, bem menor e mais magra do que eu, seria a condutora. Eu, pesadinha, na garupa. Pensa em todas as risadas que demos, nos planos que fizemos. Iríamos parar na casa deles? Uma volta ou duas? Solange e Emília davam todos os palpites possíveis e impossíveis. Suzana, ainda bem pequena, também dava uns pitacos.

Um detalhe importante: a rua da casa de Barbicha e Bigodé era de cascalho. Vimos, pela nossa janela, que os dois estavam mexendo no carro, vestimos os shorts e camisetas mais transados que tínhamos e partimos na aventura arriscada.

Cena ridícula. Eu tinha que ir com as pernas no ar, não tinha onde apoiar os pés. Já saímos de casa rindo, claro. Para chegar à rua deles, dobramos a primeira esquina e descemos a pequena ladeira. Assim que chegamos ao cascalho a coisa começou a complicar. A Lílian tinha que fazer um esforço danado para me carregar, a bicicleta começou a derrapar. As risadas aumentaram. Barbicha e Bigodé nos ouviram e olharam para nós. Ela virava o guidão de um lado para outro, tentando equilibrar a bendita bicicleta. E eu tentava equilibrar minhas pernas no ar. Que cena devia ser! Vimos que Solange e Emília estavam na janela, também rindo de nós.

Chegamos bem na frente da casa dos alvos de nossos afetos, eles olharam para nós e… caímos da bicicleta. Isso mesmo. Estateladas no cascalho. Não dá pra piorar. Ah, dá, sim. E muito.

Levantamos, às gargalhadas, e voltamos à Monareta. Ah, triste sina a nossa. Era uma subidinha. Lílian sentou no banco, eu na garupa. Assim que ela pedalou e eu tirei os pés do chão, meu peso, combinado com a inclinação do terreno, fez a bicicleta empinar como cavalo bravo. Caímos de novo, agora para trás, Lílian e bicicleta em cima de mim. Não dá pra piorar. Ah, dá sim. E muiiiiito.

O acesso de riso foi crescendo e, com ele, a vontade de fazer xixi. Sim, você acertou. Fizemos xixi na calça de tanto rir depois de dois tombos na frente dos gatos da rua dos fundos. Agora não dá pra piorar. Dá, sim, porque ali acabou aquela paixão tão intensa, aquele caso de amor duplo. Que tragédia, uma história tão linda foi levada embora pelo xixi.

Tudo muito engraçado, mas a verdade é que, em geral, as coisas podem piorar muito. Então, é melhor não reclamar de nada. Pode piorar.