PALADINA DOS DEPRIMIDOS

Reli hoje uma frase escrita por Andrew Solomon em seu livro Demônio do Meio-Dia. O oposto da depressão não é felicidade, é vitalidade. Disse tudo.
Li esse livro quando comecei a melhorar da depressão. Sou uma pessoa dos livros e, desde o primeiro momento em que recebi meu diagnóstico, comecei a estudar o tema. E descobri muitas coisas interessantes. O livro de Solomon conta a história dele, mas também é um estudo abrangente sobre o problema. Sérgio achou um absurdo eu ler um livro com esse título. O autor, que é judeu, se reportou ao Salmo 91, que fala sobre a temer a seta que voa ao meio-dia. O que acontece é que, para o deprimido, o dia é tão terrível, ou até mais, do que a noite. Aquilo que os outros muitas vezes sentem só à noite, o deprimido sofre o tempo todo. Até na hora em que todos estão animados, indo de um lado para outro, no meio de um dia repleto de afazeres.
Acho que o erro mais comum é associar depressão a fatos da vida. Seu feliz. Sempre fui feliz. Passo por lutas, problemas e tristezas, mas sou profundamente feliz. No entanto, a depressão me pegou. Em minha primeira consulta, quando me apresentou o diagnóstico, a médica me explicou que a doença é genética (refiro-me à depressão que eles chamam de maior, uma deficiência nas trocas elétricas no cérebro), e que tem quatro componentes:
1. melancolia – manifesta-se com tristeza e lágrimas, no entanto vai muito além disso. Implica em falta de vontade de continuar vivendo. Apatia. A tristeza é tão profunda que a gente fica triste porque se sente triste. E isso vai num ciclo vicioso: lágrimas que geram mais lágrimas, dor que cria mais dor. E o doente não enxerga como colocar um ponto final. E aí lá vêm aquelas pessoas cheias de “sabedoria” para dar conselho, mandar a gente olhar em volta e contar as bênçãos, etc. Dá vontade de matar. Devia existir uma lei: cada um que desse um conselho desses seria obrigado a passar um mês em depressão, só para ficar esperto. Todos deviam fazer como a Mayara: dar um abraço bem apertado no deprimido que chora. Ou como a Evany, que só me entregava um lencinho e fazia carinho na minha mão. Essas duas me ajudaram de verdade. As pessoas que não sabem das coisas acham que a melancolia é a depressão. É apenas parte.
2. angústia – pensa no sofrimento de uma crente de carteirinha que vivia angustiada. A vida inteira eu repeti: “Não andeis ansiosos…”. Mas isso não resolvia. Aí minha médica me explicou: angústia não é ansiedade, nem aflição. É uma reação do corpo, ninguém tem como controlar. E vi na Bíblia que, no Jardim do Getsêmani, antes de ser preso, Jesus se angustiou. Aí fiz uma pesquisa. A Bíblia fala várias vezes para não andarmos ansiosos, não ficarmos aflitos, mas NENHUMA vez para não nos angustiarmos. Assim como não manda ninguém não ficar gripado nem leproso. Não temos controle sobre a angústia. Existe remédio na farmácia contra ela. Poucas gotinhas. Assim como para nariz entupido. Entender isso tirou uma carga de uns mil quilos de culpa das minhas costas. E tomar o remédio riscou a angústia da minha vida.
3. falta de energia – e a crente de carteirinha só queria ficar deitada. Preguiçosa. Mole. Relapsa. Imaginemos um recipiente de energia em nós. O dos deprimidos só tem um décimo do que cabe ali. Falta vontade e ânimo para qualquer coisa. Qualquer atividade exige muito mais esforço do que as outras pessoas precisam despender. Eu só tinha vontade de ficar deitada na minha cama, no escuro. Como muito bem descreveu Sílvia, minha psicóloga, tudo que eu fazia me exigia força semelhante a empurrar um carro que estava com o freio de mão puxado. Era muito mais difícil para mim do que para as outras pessoas.
4. doenças físicas – a pessoa vive doente. Não vou citar as muitas doenças, porque não vem ao caso. Os deprimidos sabem quais são, acho que as outras pessoas, também. Quem está sempre doente, mal resolve um problema já começa com outro, cuidado! Talvez sofra de depressão e não saiba. Consulte um bom médico.

Uma das coisas importantes é que todo mundo que sofre de depressão maior tem os quatro elementos. Se não houver os quatro, pode ser stress, reação a uma grande perda, etc. Mas a doença tem os quatro elementos. Mas, digamos assim, a porcentagem, varia de uma pessoa para outra. Eu, por exemplo, sofria muito com falta de energia e angústia. Melancolia, pouca no início, depois foi aumentando, e pouquiíssimas doenças. O pior, mesmo, em grau muito mais elevado do que os outros, era a falta de energia.
Segundo minha experiência, há apenas um conselho que funciona para deprimidos: vá ao médico! Existe tratamento. Você tem esperança. Os remédios hoje são muito avançados. Os efeitos colaterais, mínimos. Essa área progrediu tanto que a pessoa toma a medicação de acordo com os elementos mais presentes em sua doença. Eu tomava um que agia mais na falta de energia. Depois mudei, porque a melancolia ficou mais forte, passei para um que agia nessa área.
Eu passei anos tendo crises, sem saber. No fundo, acabava desconfiando, porque sempre li sobre o assunto. Mas havia uma barreira. Depois que descobri a verdade sobre a doença, foi como Jesus prometeu que aconteceria: a verdade me libertou. Libertou do sentimento de culpa (ninguém tem culpa por sofrer de uma doença), me libertou dos sintomas (os remédios cuidaram disso), me libertou da ignorância.
Transformei-me, sim, na paladina dos deprimidos! Defendo a gente com unhas e dentes. E que ninguém venha me dar sermão. Sou bem capaz de jogar na cabeça do “esperto” um exemplar do Demônio do Meio-Dia. Se a pessoa ler, vai aprender. Se não, pelo menos vai ficar com um galo na cabeça. Bem feito.

O QUE SALVAR SE MINHA CASA PEGAR FOGO?

Tenho a resposta na ponta da língua. Não sei se, diante de minha casa em chamas, eu seguiria com meu projeto, mas eu sempre afirmo que pegaria o máximo de fotografias que pudesse.
Sou apaixonada por fotografia. Não artísticas, nem sou eu quem as tira. Sabe aquelas em que a família faz pose, todo mundo bonitinho e sorrindo? É, essas mesmo. Gosto de mexer com elas. Arrumar os álbuns, organizar em ordem cronológica. Amo fazer Scrapbooks. Cada página pronta é contemplada infinitas vezes.
Minha casa é repleta de porta-retratos. Sérgio também curte as fotos. Gosto de inventar com elas. Fazer clipes com música e dar de presente. Fiz um mural lindo para o quarto do Serginho, com fotos dele desde recém-nascido até adulto. Experimentei os scraps digitais, fiz uma agenda para o Sérgio, um livro para a Amanda, mas não é minha praia. Prefiro pegar as coisas, gosto do alto relevo dos enfeites na página.
Tenho cerca de 40 álbuns de 200 fotos cada um, meticulosamente organizados. Só guardo as que me agradam. Se não gosto de alguma coisa, jogo logo fora. Pra que guardar uma coisa de que não gosto? Assim, devo ter jogado fora quase o mesmo tanto de fotografias que arquivei.
Há algumas fotos fora de ordem, mas eu coloco um aviso nelas: FORA DA ORDEM CRONOLÓGICA!!!! A primeira foto nos meus álbuns é da minha mãe, ainda adolescente, de trancinha. Daí em diante, eles contam minha história, que é a nossa história, a da minha família.
A Bíblia tem um versículo que eu amo. No meio de uma devastação completa, sua nação destruída, seu povo levado para o cativeiro, o profeta Jeremias disse: “Quero trazer à memória aquilo que pode me dar esperança”! É isso que as fotografias fazem comigo. Trazem a esperança.
A gente só fotografa momentos alegres. Ninguém pega a câmera e sai clicando quando está em meio ao sofrimento. Alguém falou que ninguém é tão feliz quanto aparece no Facebook. Claro. Pra que colocar ali as dificuldades? Queremos lembrar do que dá esperança.
Às vezes, eu me sento e pego um dos álbuns, aleatoriamente. Em meia hora, posso percorrer uns 10 anos de vida. Meus filhos correm, riem, brincam. Volto aos lugares onde moramos antes. Dou um replay em diálogos. A história editada que as fotografias apresentam mostram que a gente é feliz.
Nunca, em nenhum dos momentos naqueles álbuns, vivi sem problemas ou preocupações. Não existe vida sem contratempos, dificuldades, obstáculos, tristezas. Mas as fotos mostram que sempre fomos felizes, mesmo com tudo isso. Mostram, também, que as coisas ruins ficam para trás, mas as boas continuam com a gente pela vida toda. Por isso relaciono as fotografias com relembrar o que dá esperança. Não só podemos ser felizes no meio das dificuldades. Um dia, de alguma forma, elas vão passar, não tenho nada que me obrigue a lembrar delas. No entanto, cada foto, é um marco para me ajudar a reviver de um momento de alegria.
É, não tenho dúvida. Na casa pegando fogo, quase tudo mais poderia ser reposto, mas minhas fotos…