SUPER CLÁUDIA x VENDEDORES(AS)

Poucas categorias de pessoas me irritam tanto quanto vendedores mal treinados. Para ser justa, muitos nem têm culpa, é a filosofia de trabalho do patrão que os torna insuportáveis.
Quando eu vou fazer compras, ao contrário do que acontece com muitas mulheres, eu já não estou lá muito empolgada. Não gosto de fazer um montão de compras, acabo cansada. É, a tal falta de energia tem lados positivos. Além disso, sou altamente introspectiva, ou seja: gosto de ficar eu comigo mesma, sem ninguém me atrapalhando. E isso fica ainda mais exarcebado quando vou fazer compras e eu e eu mesma precisamos conversar sobre o que vamos adquirir.
Mas, fala sério, há certo treinamento de vendedores que foi criado especificamente para me irritar. Alguém me estudou e decretou: vou fazer exatamente o que impedirá que pessoas como a Cláudia façam compras nas minhas lojas.
Vou dar um exemplo. Quero comprar óculos escuros. Sei exatamente o que quero: tipo aviador, com aro fino, lente preta bem escura. No domingo, depois de almoçar no Pier, vi uma loja Chilli Beans. Bem na entrada, o display com os óculos do tipo que quero. Eu e Sérgio entramos. Eu nem tinha me aproximado direito e já se materializou do meu lado uma chata de galocha (o que aparece em itálico é o que tive vontade de dizer, mas só pensei):
– A senhora precisa de ajuda?
– (Se você me deixar em paz já será uma grande ajuda.) Não, obrigada, quero ver estes óculos.
– São modelo aviador.
DRRRRRRRRRRRRRRR
São inspirados nos modelos Ray-Ban.
– Você acha que sou burra, alienada, ou o quê?
Eu tentava mexer nos óculos, para experimentar alguns. A criatura, plantada na frente do espelho (o que, óbviamente, me impedia de ver minha linda pessoa com os óculos no rosto), ficava dando pitaco:
Esses são lindos, com lente marrom.
Eu quero preta.
Ali na outra estante eu tenho outros, com o aro mais grosso.
Quero destes, bem fininhos.
– Mas os outros vão ficar lindos na senhora.
– Ai, como sofro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Volto outra hora.
A senhora me procura, meu nome é XYZ.
– Volto nunca, e de preferência no dia da sua folga. 
E fui embora. Sérgio que já me conhece já muuuuiiiiiiito tempo, saiu rindo da minha irritação.
O que aquela vendedora “excelente” não sabia é que eu IA comprar os óculos e, talvez, um relógio branco. Ela me enxotou da loja. Raramente eu entro em uma loja sem intenção de comprar uma coisa. Se não pretendo comprar, não entro. Simples assim.
Eu gosto de andar em lojas sem ninguém na minha cola. Um dos lugares em que mais compro é na J.C. Penney, uma loja dos Estados Unidos (aliás, dona Obama também gosta). Não é chique. Tem um monte de araras. Encontro tesouros ali, sem ninguém a me chatear. Quando preciso de ajuda, sempre há alguém por perto, mas ninguém a deduzir que sou burra, nem que não sei fazer minhas próprias compras e preciso que me guiem por todas as etapas.
Eu conheci a vendedora ideal. Trabalhava na Arezzo, há muitos anos. Pena que não decorei o nome dela, porque poderia prestar, agora, uma homenagem pública.
Antes de saber que sofria de depressão, os períodos em que eu estava em crise, que me deixavam totalmente sem energia, eram conhecidos em família como “mal-estar generalizado”. Nas piores situações, dizíamos que eu estava “generalizadíssima”. Cristina inventou isso, por causa de “infecção generalizada”.
Eu estava generalizadíssisssisssissima. Meus filhos ainda não dirigiam, estudavam à tarde, e eu os deixei no colégio. Resolvi ir ao shopping me arrastar por lá, em vez de voltar para casa e me jogar na cama.
Estávamos preparando uma viagem para os Estados Unidos. Passando na vitrine da Arezzo, vi uma bolsa de viagem muito bonita, que seria ideal para levar na mão.
Entrei na loja e fiquei olhando. A vendedora se aproximou:
– A senhora precisa de ajuda?
– Não, obrigada, estou só olhando.
Andei pela loja à vontade. Ela não me mostrou nenhum lançamento, não veio com aquelas conversas de “aquela da novela” que são as que me fazem fugir da loja como se tivesse um tsunami atrás de mim. Odeio coisas “iguais à da novela”.
Cansada (lembra, eu estava generalizadíssima), sentei. Ela me ofereceu ajuda. Perguntou se eu estava me sentindo bem, se queria água. A água eu aceitei. Quando ela trouxe, falei que estava olhando aquela mala, mas estava desanimada demais para comprar. Ela falou que, se eu quisesse, podia ficar sentada onde estava, que ela traria a mala e tudo mais que eu pedisse para ver.
Recostei no sofá. Ela trouxe mala, mochila, bolsa, sapato. Saí de lá com tudo. Na hora de pagar, falei para ela:
– Acho que você é a melhor vendedora que já encontrei. Eu cheguei aqui me sentindo tão mal, que não tinha forças para comprar nada. Olha o tanto de coisa que você me vendeu.
– Eu vi que a senhora estava passando mal. Melhorou?
– MUITO!!!!!
Fui embora feliz da vida. Ainda sem energia, mas super contente com minhas compras.
Pensando bem, felizmente a maioria das vendedoras se parece com a da Chilli Beans, porque se elas fossem como a da Arezzo eu estaria ferrada.
Olha eu aí, toda chique com meu vestido que comprei sem ninguém me incomodar na J.C.Penney:

MAMÃE, A GUERREIRA

Em outrubro, como já foi comentado aqui neste blog, meu pai foi operado para a colocação de uma prótese no quadril. Edgar, médico, nosso amigo, comentou que jamais tinha visto um osso em situação tão terrível quanto o do papai. Com isso, falou que a dor que ele vinha sofrendo há muitos anos era indescritível, inimaginável. E repetiu, várias vezes:
– O senhor é um guerreiro. Um guerreiro. Aguentar tudo isso… é um guerreiro.
Bem, meu papai está em pé. Locomoção com ajuda apenas de um andador. Ainda sente muita dor. Afinal, falta “consertar” o quadril e o joelho direitos. De toda forma, hoje ele foi e voltou a Luziânia dirigindo seu próprio carro novo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

“Como agradecer a Deus todo o bem que tem feito a nós ?”
Mas não é sobre meu pai que vou escrever hoje. É sobre a Guerreira, minha mãe.
Papai sempre foi o protetor. Ele sempre cuidou de tudo que era chato (não foi por acaso que me casei com o Sérgio). Papai dirigia, controlava a parte incômoda dinheiro e deixava a boa – gastar – para nós, sempre foi com minha mãe ao mercado, acompanhou a médicos e dentistas, atendeu os chamados dos filhos durante a noite, enfim, sempre cuidou da mamãe de todas as formas possíveis.
Ela sempre teve os Domínios Angelicais (não eram apenas Angelais). Nossa casa sempre foi perfeita. Tudo feito a hora e tempo, com a maior eficiência possível. Não foi fácil, mas ela sabia que o papai estava a postos, para cuidar dela.
Só que a artrose o deixou dependente. A coisa se inverteu. Cada vez mais, ela precisou assumir tarefas que detesta: cuidar de contas bancárias, fazer pagamentos, dirigir o carro, tomar a frente ao chegar em hospitais e clínicas para fazer exames, ajudar fisicamente o papai a se movimentar pela casa, levar na cama tudo de que ele precisava, ir ao mercado sozinha, e assim por diante, e, ainda por cima, enfrentar a parte pior dos dias mais difíceis, em que a dor era maior, ou ele tinha alguma reação adversa a medicamentos que o deixavam completamente “doidinho”. Além disso, a dor não permite que ele durma bem há muito anos, e, claro, ela também não dorme. Precisa se levantar várias vezes, todas as noites, para atender qualquer necessidade dele, seja ir ao banheiro, tomar água, tomar um comprimido ou comer um biscoito. 
Apesar de não dormir, as atividades dela durante o dia não sofrem qualquer abalo. Continua a fazer tudo com a mesma eficiência de sempre. Creio firmemente que só na eternidade saberemos, de fato, todas as lutas pelas quais ela tem passado nesses anos todos.
NUNCA a vi se queixar. Já vi declarar o tanto que sente por ele passar por tudo isso. Já vi momentos de cansaço, de esgotamento, tristeza, aflição. Na esmagadora maioria do tempo, no entanto, vi cuidado, amor, carinho, desdobramento. Na verdade, não sei como ela encontra forças para fazer tudo que faz.
Bom, eu sei: ela encontra forças em Deus.
Eu jamais acordei antes da minha mãe. Aliás, só uma vez: íamos para BH, o voo era muito cedo, ela dormiu aqui em casa, e o despertador tocou no meu quarto.
Em todos os outros dias da minha vida, ao acordar, já encontrei a mesa do café pronta, e ela já tinha lido a Biblia e orado.
Eu poderia prosseguir por muitas linhas, descrevendo tudo que minha mãe fez e faz. Mas sei que o que já contei dá para ter uma ideia. Grande privilégio ter essa mãe. E, na verdade, o Edgar deveria dizer:
– Dona Ângela, a senhora é uma Guerreira. A senhora é a verdadeira guerreira, sem a qual o guerreiro teria desistido de lutar há muito tempo.

Sou profundamente e totalmente grata a Deus por ter essa guerreira como mãe. E espero conseguir ser um pouco parecida com ela. Tarefa difícil, mas, quem sabe eu consigo alguma coisa? Afinal, exemplo eu tenho…