AS MARCAS QUE FICAM – Uma homenagem a Jairo Marçal

Infelizmente, é fato do qual ninguém escapa: nascemos, vivemos e morremos. Também é fato que todos deixamos marcas na vida dos que ficam depois que partimos.
Hoje, ao abrir a janela, contemplei mais uma vez meu pé de acerola. Carregadinho. No almoço, tomei suco – delicioso! Meu sogro nos deu a muda da árvore há cerca de 18 anos, antes de começarmos a construir nossa casa. Ele se foi, mas a árvore nos faz lembrar sempre do carinho dele.
Tenho outra planta com história. Minha avó paterna deu para minha avó materna uma planta muito linda. As duas morreram, tia Celina ficou com a planta. E me deu uma muda, que sobre pelo muro perto da piscina.
Há outras marcas, não só plantas, claro. Tenho um dicionário de inglês Webster que pertenceu a meu avô materno, que eu mal conheci. E herdei um monte de livros da minha avó materna.
E existem as marcas que não são vistas, estão apenas no coração e na mente. Eu poderia desfiar aqui uma sequência quase infinita desses sinais deixados por pessoas que amo e que já partiram, mas hoje eu quero lembrar de uma pessoa muito especial – Jairo Marçal.
Ele chegou a Brasília no início da década de 80, e logo se entrosou em nossa igreja. Tinha voz muito linda, e amava nosso Coral. Os dois filhos fizeram amizade com nossas crianças, Denise, a esposa, mais tímida, foi chegando mais devagar, mas também ocupou sua parte em nosso coração.
Jairo era muito engraçado. No Coral, ele cantava tenor e implicava com o contralto (eu sou contralto). Vivia dizendo que se tirassem nossa voz do Coral, não faríamos falta nenhuma. No Aleluia de Haendel, ele cismou com uma entrada do contralto, em que cantávamos a sílaba “pa” antes de todo o restante do Coral. E ficava falando no maravilhoso “pa do contralto”.
Equilibrado, calmo, estudioso, muito inteligente e preparado, Jairo era excelente para dar aulas, para fazer palestras. Pena que era muito tímido… não pudemos aproveitar esse seu lado tanto quanto gostaríamos. Mas, quando ele abria a boca para falar sério, sempre tinha coisas importantes para dizer. Sabia brincar e também ensinar.
Durante os anos 80 e parte dos anos 90, nossa igreja foi tomada por uma febre de jogar totó. Acabava o culto e o salão ficava repleto de gente jogando e torcendo. Jairo era dos mais entusiasmados. Era secretário do Coral, e, assim que o culto terminava ele tinha que guardar todo o material usado. Como o esquema para o jogo era de “próxima”, ele escondia a bolinha no jogo, e só entregava se pudesse fazer parte de uma das primeiras duplas. Era comum a gente ver o Jairo correndo pelo corredor, segurando a beca para não tropeçar, carregando as pastas do Coral, e gritando:
– Próóóóóóóóóóxxxxxiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A voz dele era muito linda. Na primeira montagem que fizemos do Printy, ele foi o violão. Na segunda, foi o filho dele, o Dálcio. Aliás, um dos momentos musicais mais belos de que me lembro em nossa igreja foi um dueto que eles fizeram, na cantata Natal dos Anjos. Em outro Natal (Cantata Rei dos Reis, a mesma que cantamos no Natal passado), o Coral dizia: “E o anjo, então, lhe falou”, e entrava o solo do anjo. Só que o solista estava inseguro, então o regente colocou o Jairo para cantar com ele. E o Jairo dizia que o Coral tinha que dar um jeito de cantar: “E o anjo e seu amigo, então, lhe falaram”.
O Jairo partiu. Mas deixou comigo a marca de sua humildade, mansidão, de seu humor, de sua dedicação à família e a Deus. Deixou a marca da integridade, da honestidade, do trabalho sério. Ele levava a sério todas as tarefas, por mais insignificantes que parecessem. Exemplos que jamais esquecerei.
A saudade é grande, mas já vinha grande há muito tempo, desde que ele adoeceu e foi se desligando desta vida. Hoje, ele está cheio de vida, cantando com o Ernesto, o seu Grossi, o seu Oseas, a dona Elvira e tantos outros de nosso Coral que já se foram. Talvez, mais tarde, eles joguem uma partida de totó… se o Jairo não esconder a bolinha.

A BELA E A FERA

Sábado fui a uma festa. No horário do almoço. Três anos de uma criança lindíssima. O tema, como o título do post já leva a deduzir, era A Bela e a Fera. Assim que eu cheguei e dei um beijo na aniversariante, que, por sinal, não gosta de beijo, nem de abraço, nem de carinho (segundo ela mesma), mas aceitou tudo de bom grado durante a festa, ela me informou:
– Meu pai é a Fera.
Achei engraçadinho – acho engraçadinho tudo que ela faz – mas não dei muita atenção ao comentário. Aí chegou a hora de cantar parabéns. Aberto o espaço perto da mesa dos doces, a música do filme tocando, surgem ela e o pai, a caráter. Ela tinha até as luvas da Bela, e ele com a calça e o blazer da Fera. Dançaram a valsa exatamente como no filme. Até com os rodopios e viradas que fazem a graça da coreografia. Tudo muito bem ensaiado. Eu e várias outras pessoas choramos, emocionadas. Não somos apenas manteigas derretidas. Havia muitas coisas comoventes por trás daquela cena.
O pai, tão dedicado, dançando com tanto cuidado com aquela filhinha tão amada, foi uma das crianças mais trabalhosas que a face da terra já conheceu. Era tão bagunceiro, sua mãe vivia sendo chamada para conversar com orientadores, professores, diretores e tudo mais. Aprontou a valer. Durante a adolescência, teve sua fase de rebeldia, e continuou a dar preocupações. No entanto, é filho de pais sensatos, maduros e que conhecem o amor de Deus. Jamais deixaram de aconselhar, corrigir, orar e fazer tudo mais que era necessário para ele encontrar seu caminho. E ele encontrou. Pai amoroso, marido apaixonado, profissional bem sucedido. Prova viva das maravilhas que o amor humano e divino combinados fazem na vida de uma criança, de um adolescente.
Já a Bela, nasceu nos dando um susto tremendo. Dias entre a vida e a morte, na UTI neonatal, não podia ser nem ao menos tocada pelos pais. Quanto sofrimento, quanta preocupação! Saiu do hospital com um mês de idade, mas ainda com alguns probleminhas de saúde, que obrigavam a mãe a grandes restrições alimentares para não passar pelo leite elementos que faziam mal a ela.
Durante aquela dança, não pude deixar de lembrar desses momentos de luta, e minhas lágrimas eram de alegria, por ver, com meus próprios olhos, a bênção de Deus materializada.
Depois da valsa e dos parabéns, dei um abraço na Bela e falei que a dança tinha sido tão linda que eu tinha até chorado. E ela comentou com uma outra convidada:
– Eu dancei tão bonito que a tia Cláudia até chorou. Nem precisava.
Precisava, sim.
Contei isso a Clarice, e ela lembrou de uma música da qual eu também tinha lembrado – Cinderella (clique no link para ouvir no You Tube). Um pai que fala sobre dançar com sua filha. E ele diz que quer dançar enquanto a filha está por perto, porque chegará o dia em que ela não estará mais.
A filha do compositor morreu, mas, na música, ele deixa de lado sua tragédia pessoal e fala sobre o dia, quase inevitável, em que chegará um príncipe para levar a menina, e que ele não poderá mais dançar com a Cinderela, porque ela terá ido embora.
Sei não, a Bela que eu vi dançar no sábado pode se casar, mas estará sempre por perto da Fera, porque sabe que aquele pai se dispõe a fazer qualquer coisa por ela. Desde ficar mudo durante horas na UTI, dia após dia, até ensaiar, dia após dia, para fazer a apresentação que ela queria no dia de sua festa. E, à medida que o tempo for passando, o menino mais levado que conheci mostrará cada vez mais para sua Bela que é digno da confiança e do amor dela, de sua esposa e de seu filhinho.
Precisa ou não chorar de alegria?