PAPAI

Quando aquele navio, o Costa-sei-quê-lá, encalhou, eu e mamãe assistimos uma entrevista com uma família que estava a bordo. Os pais se separaram dos filhos na confusão, e acabaram sendo colocados num barco salva-vidas com o filho, sem saber onde estava a filha. Acabou tudo bem, se reencontraram em terra. Mamãe falou:

– Eu talvez entrasse no barco sem um de vocês, mas seu pai não entraria de jeito nenhum.

Também tenho certeza disso. Na verdade, quando assisti a entrevista com a mamãe, já tinha visto em outro programa, e fiquei meio chocada com a atitude do pai. Vai ver que é assim que funciona na maioria das vezes – asseguraram a ele que alguém tomaria conta da filha e ele confiou nos responsáveis pelo resgate – mas não é essa a minha realidade.

Papai tornou muito fácil para nós entendermos o Deus Pai que se doa inteiramente pelos filhos. Ele sempre foi assim. Vou do Alfa ao Ômega, para mostrar o que quero dizer.

Podemos colocar como Alfa um passeio que fizemos a Marataízes, quando eu tinha pouco mais de 1 ano. Não existia filtro solar e somos todos mais alvos do que a neve, pelo menos por fora. A areia estava quente e eu não queria andar. Com pena de mim, papai me colocou nos ombros e me carregou descalço por um longo trecho. No dia seguinte, tinha bolhas tanto na sola quanto no peito do pé, nem conseguia andar.

Coloquemos o Ômega como a semana do meu casamento. Acordei no meio da noite com sede. Como de costume, gritei:

– Pai! Pai!

Num instante, lá estava ele no meu quarto.

– O que foi?

– Estou com sede.

Ele foi à cozinha pegar minha água. Eu dormi. Acordei de manhã e o copo d’água estava na mesinha da cabeceira, como aconteceu milhares de vezes durante minha vida.

Entre o Alfa e o Ômega, ele se doou o tempo todo e de todas as formas possíveis pelos filhos e pela esposa. Estabeleci o Ômega como o meu casamento, mas, claro, não parou lá.

O fato é que, agora, a situação se inverteu. Nós temos que cuidar dele. Fato que não o deixa à vontade.

No início de junho, quando fomos a NY, eu fui com a missão específica de cuidar de nossos pais. No primeiro dia, mamãe toda hora se oferecia para empurrar um pouco a cadeira de rodas ” para você descansar”. Claro que eu não ia deixar. E os dois ficavam repetindo:

– Coitada de você! Poderia estar passeando com o pessoal, está aqui cuidando de nós!

Eu repetia que estava achando tudo excelente, estava curtindo de montão. Afinal de contas, poucas pessoas têm o privilégio de levar seus pais a NY e fazer tudo que eles querem. E milhões que não os têm mais dariam tudo para “sofrer” o que eu estava “sofrendo”.

No final do dia, quando chegamos ao hotel, eu fiquei valente e decretei:

– Amanhã, não quero ouvir nenhuma vez mamãe se oferecer para empurrar a cadeira. Eu simplesmente NÃO vou deixar. E também não quero ouvir nenhum “coitada da Cláudia”. Estou radiante nesta viagem. Se não estivesse aqui com vocês, estaria sentada no meu escritório trabalhando. O que será que eu prefiro? E não estou achando nada ruim!

Mamãe lembrou, então:

– É, ele queimou os pés te carregando…

E eu:

– Pois então, enquanto eu não ficar sem poder andar, com os pés queimados, é sinal de que ainda nem comecei a pagar a dívida. E tenho dito!

Rimos, e eles me obedeceram. Não falaram mais coitada nem teve oferta para me substituir no controle da cadeira.

Como eles são muito educados, agradecem todas as vezes que fazemos alguma coisa por eles. Mas o fato é que estou apenas retribuindo o que recebi. E meu débito ainda é extremamente elevado, uma dívida impossível de ser paga. Então o diálogo é:

– Muito obrigado, de verdade!

Eu:

– De nada, mas eu ainda não queimei os pés.

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4 comentários sobre “PAPAI

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