10) BRASIL x HOLANDA

Um quinto de meu objetivo de contar 50 histórias da Igreja Metodista da Asa Sul cumprido hoje! Até agora, não tive dificuldade para lembrar de “causos”, vamos ver o que acontece até o final.

Hoje, de novo, o coral. Parece que é o grupo da igreja que mais se mete em fria. E essa a que me refiro foi, literalmente fria.

Eu queria, muito, saber quem foi o alienígena que resolveu marcar um evento para o Coral cantar em Paracatu, num sábado à tarde, quando o Brasil enfrentava a Holanda na Copa do Mundo de 1994 (aquela dos Estados Unidos, que o Brasil ganhou).

Saímos daqui depois do almoço. Nós, os espertos – eu, Sérgio e Joel – porque o resto do pessoal tinha ido de manhã, de ônibus. Nós fomos na caminhonete do meu cunhado, porque ela tinha televisão. Havia promessa de organizarem um lugar para a gente assistir o jogo, mas, por via das dúvidas, achamos melhor garantir nosso lado.

Bem, quando aceitamos o convite para cantar no tal evento, que não tenho a menor lembrança do que foi (só sei que cantamos em um palanque, na rua, à noite, num frio de congelar esquimó), ninguém se deu conta de que seria em dia de jogo da Copa. Quando descobrimos, foi um levante geral. É, tinha os espirituais, que diziam que a gente tinha que cumprir a missão, que era uma oportunidade de pregar, que não era certo deixar de cantar no coral por causa de jogo, etc. Preciso confessar que não fiz parte desse grupo. Eu queria era fazer como sempre: assistir o jogo na minha casa, com toda a família reunida, estourando pipoca no microondas e servindo refri, amendoim, pão de queijo e mais um monte de coisas. Num aparte pessoal, penso que há muito de espiritual numa reunião gostosa da família em torno de um programa como esse.

A maior concessão que fizemos, eu, Sérgio e Joel, foi almoçar na casa da minha mãe e sair daqui depois do almoço. O pastor da igreja de Paracatu arrumou uma televisão para a gente assistir o jogo… NA RUA!!!!!! Um monte de cadeiras, um monte de casacos (gente, acho que nunca senti tanto frio – bem, teve um verão na Califórnia e um inverno do Grand Canyon, mas são outras histórias), nada de pipoca, imagem péssima, sinal falhando. O pastor de Paracatu fazia questão de mostrar que não estava ligando para o jogo, então ficava passando na frente da gente, tentava conversar com uns e outros. Mas o Coral em peso estava grudado na TV, para desespero dele.

Felizmente ganhamos. Jogo sofrido, 3×2 para nós, mas foi um sufoco. Acabado o jogo, fomos nos preparar para o evento da noite, que, por mais que me esforce, não consigo lembrar o que era. E, claro tinha meia dúzia de gatos pingados assistindo a gente. Hellôoou, era jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Ninguém queria sair para a rua naquele frio e ouvir um coral desconhecido.

Pode ter sido ideia de “jirico” (como diz meu pai), mas foi um dia inesquecível. Já assisti meio milhão de jogos da seleção brasileira, mas aquele foi inesquecível. Congelando, com meus colegas coralistas, em uma rua de Paracatu. Programa reservado a poucos privilegiados.

7) SERENATAS

Acho que ninguém mais faz serenata. Talvez eu esteja envelhecendo, mas sinto que os jovens perderam uma coisa muito boa quando o costume foi abandonado.

Não havia um acampamento sem serenata. Caprichada. Com solos, divisão de vozes. As meninas corriam agitadas de um lado para o outro no quarto escuro, de camisola, tentando enxergar os garotos. Era um tal de “shhhhhh, fica quieta” que ninguém aguentava. Claro que a gente tinha múltiplos acessos de riso de puro nervoso. Quando eles acabavam a “linda” apresentação, a gente acendia e apagava as luzes duas vezes, para eles saberem que tínhamos ouvido (como se não tivessem ouvido toda a correria e risadaria de antes).

Certa vez, o acampamento foi… dentro. Isso mesmo, no nosso prédio. Os meninos dormiam no andar de baixo e nós, no de cima. Com as portas trancadas, para não haver qualquer “interação” oculta. Não havia parede entre a sala que hoje é dos juvenis e a dos jovens, de modo que era um espaço bem amplo, então todas as meninas dormiram ali mesmo. Sei que havia outra igreja também, não tenho certeza se era o pessoal de Belo Horizonte, ou de outra igreja daqui de Brasília mesmo. O fato é que ficamos deitadas, conversando e rindo, à espera da infalível serenata. De repente, movimento lá embaixo. Todas corremos para a janela. Bernadette e Daso namoravam, e ela queria ver o amado cantando para ela. Mas tinha menina demais, tomaram conta de todo o espaço disponível. Empurra daqui, empurra dali, Bette conseguiu chegar à janela. Alguém cochichou: “Olha o Daso ali!”. Ela, empolgadíssima, foi olhar e… pow! uma cabeçada monumental no vidro da janela. Foi menina caindo pra todo lado de tanto rir. Depois que a tontura passou, a coitada conseguiu vislumbrar o futuro marido por alguns breves instantes.

Bem, mas a serenata mais inesquecível de todas foi feita pelo coral. Poucos dias antes do Natal, alguém fez uma lista com endereço de membros da igreja que não cantavam no coral. E o grupo saiu, fazendo serenata de Natal!!!! Não me lembro em que ano foi, mas tem muito tempo. Foi tão gostoso! Até os vizinhos abriam as janelas para ouvir os hinos lindos, e muitos perguntavam de onde era aquele grupo. Ah, e foi surpresa! Era bom ouvir alguns dizendo, espantados: “Nossa, é o coral da minha igreja!”. Claro que gostaram do presente inesperado de Natal.

Seja para rir ou levar a sério, sinto, mesmo, muita saudade das serenatas embaixo da janela…