28) O MELHOR NATAL

Ainda no início de agosto e já pensando em Natal. Aliás, tenho pensado neste Melhor Natal desde o início de julho, quando o rev. Wildo foi submetido à cirurgia que resultou em complicações que colocam em risco a vida dele.

Na verdade, ao postar no Facebook, eu sempre digo rev. Wildo, porque ele é reverendo, mas, para mim, é o Wildo. Eu o conheci através do Henrique, no início da década de 1980. Era um jovem com um grande sonho. Continua jovem de coração e com grandes sonhos. Mas, naquela época, a grande obra que ele faz ainda era um projeto. Acho que ele nem imaginava a projeção que tem hoje.

Quando eu penso no Wildo, duas características me vêm à mente: olhos doces e voz tranquila. Sei que ele deve ter seus momentos de ira, mas, graças a Deus, nunca os vi. Conheço o homem que olha as pessoas com amor.

Ainda muito jovem, o coração dele ardeu pelos sem-teto. Começou a distribuir sopa aos mendigos de Anápolis, à noite. Aos poucos, foi surgindo uma equipe para o ajudar. Não era apenas sopa que ele queria dar. Queria alimentar e limpar o corpo e apresentar a mensagem transformadora de Jesus, que poderia por fim à situação triste em que aqueles homens viviam. Daí surgiu um trabalho que se chamava Sopa, Sabão e Salvação. Muitos homens foram alcançados pelo cuidado daquelas equipes. O trabalho foi crescendo e, para encurtar a história, surgiram as casas de recuperação, onde os homens participam de um programa que os leva a se reintegrarem na sociedade. Há muitos anos a organização se chama Missão Vida.

Wildo não é machista. Mas uma vez ele me falou que seria complicado trabalhar com homens e mulheres ao mesmo tempo. A sopa ia para todos, mas as casas de recuperação recebem apenas homens.

O que tudo isso tem a ver com meu melhor Natal e, além do mais, com a Igreja Metodista da Asa Sul?

Bem, durante algum tempo – a meu ver curto demais – nossa igreja abrigou, nas sextas-feiras, a distribuição da sopa. Chegavam homens em estado calamitoso. Imundos, famintos, feridos no corpo e na alma. Tomavam banho, recebiam sopa e ouviam a Palavra de Deus.

Não me esqueço de um senhor. Eu fazia o cadastramento dos presentes, e havia um pequeno questionário. Perguntei onde ele costumava dormir. Ele me disse: “Onde me dá sono”. Onde ele comia: “Onde me dá fome”. Não tinha absolutamente ninguém neste mundo. Nenhuma raiz. Enquanto durou a distribuição da sopa, ele esteve lá todas as semanas.

Quando chegou dezembro, um desafio: Vamos fazer uma Ceia de Natal para eles, no dia 24 de dezembro! Dona Cleusa, a chefe da cozinha, topou na hora. E começou a planejar o cardápio. Foi uma trabalheira. Nas fotos abaixo, dá para ver que havia muitos mendigos famintos apreciando a Ceia maravilhosa preparada por dona Cleusa e seus fieis escudeiros. Para coroar, uma torta, igual à que ela faz para as festas da nossa igreja. Depois de comerem à vontade, os mendigos foram para o templo, onde os primeiros bancos estavam reservados para eles, e ouviram a Cantata de Natal.

Não lembro o que cantamos, mas jamais esquecerei a expressão daqueles rostos nos contemplando como se fôssemos anjos. Com certeza, foi meu melhor Natal. E não teria acontecido se o Wildo, uma noite, não tivesse saído com uma panela para distribuir sopa quente aos mendigos que vagavam pelas ruas de Anápolis.

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7) SERENATAS

Acho que ninguém mais faz serenata. Talvez eu esteja envelhecendo, mas sinto que os jovens perderam uma coisa muito boa quando o costume foi abandonado.

Não havia um acampamento sem serenata. Caprichada. Com solos, divisão de vozes. As meninas corriam agitadas de um lado para o outro no quarto escuro, de camisola, tentando enxergar os garotos. Era um tal de “shhhhhh, fica quieta” que ninguém aguentava. Claro que a gente tinha múltiplos acessos de riso de puro nervoso. Quando eles acabavam a “linda” apresentação, a gente acendia e apagava as luzes duas vezes, para eles saberem que tínhamos ouvido (como se não tivessem ouvido toda a correria e risadaria de antes).

Certa vez, o acampamento foi… dentro. Isso mesmo, no nosso prédio. Os meninos dormiam no andar de baixo e nós, no de cima. Com as portas trancadas, para não haver qualquer “interação” oculta. Não havia parede entre a sala que hoje é dos juvenis e a dos jovens, de modo que era um espaço bem amplo, então todas as meninas dormiram ali mesmo. Sei que havia outra igreja também, não tenho certeza se era o pessoal de Belo Horizonte, ou de outra igreja daqui de Brasília mesmo. O fato é que ficamos deitadas, conversando e rindo, à espera da infalível serenata. De repente, movimento lá embaixo. Todas corremos para a janela. Bernadette e Daso namoravam, e ela queria ver o amado cantando para ela. Mas tinha menina demais, tomaram conta de todo o espaço disponível. Empurra daqui, empurra dali, Bette conseguiu chegar à janela. Alguém cochichou: “Olha o Daso ali!”. Ela, empolgadíssima, foi olhar e… pow! uma cabeçada monumental no vidro da janela. Foi menina caindo pra todo lado de tanto rir. Depois que a tontura passou, a coitada conseguiu vislumbrar o futuro marido por alguns breves instantes.

Bem, mas a serenata mais inesquecível de todas foi feita pelo coral. Poucos dias antes do Natal, alguém fez uma lista com endereço de membros da igreja que não cantavam no coral. E o grupo saiu, fazendo serenata de Natal!!!! Não me lembro em que ano foi, mas tem muito tempo. Foi tão gostoso! Até os vizinhos abriam as janelas para ouvir os hinos lindos, e muitos perguntavam de onde era aquele grupo. Ah, e foi surpresa! Era bom ouvir alguns dizendo, espantados: “Nossa, é o coral da minha igreja!”. Claro que gostaram do presente inesperado de Natal.

Seja para rir ou levar a sério, sinto, mesmo, muita saudade das serenatas embaixo da janela…