HILÁRIO (6) – Tio Amílcar

Há dois anos, no dia 19 de junho de 2009, tio Amílcar faleceu.
Esquisito começar assim um texto intitulado “Hilário”, mas o fato é que ele foi a pessoa mais engraçada que conheci até hoje. Não fazia graça. ERA engraçado por natureza. Falava as coisas mais naturais e a gente morria de rir… Na verdade, essa minha série “Hilário” deveria ter começado com uma homenagem ao tio Amílcar.
A primeira história sobre ele de que me lembro se relaciona ao apelido: Meneguete. Não sei se é essa a grafia correta, mas é assim que papai fala. Apareceu em São Paulo um ladrão que entrava nas casas sorrateiramente e fazia a limpeza. Na casa dos Ziller, em Belo Horizonte, vovó guardava na prateleira mais alta do armário as guloseimas que fazia para momentos especiais. Só que elas teimavam em desaparecer. Com o armário trancado. As investigações revelaram que tio Amílcar, por ser bem alto, havia dado um jeito de soltar a tábua de cima do armário, enfiava a mão por lá e surrupiava os doces. Pronto. Ganhou o nome de Meneguete.
Por essa época, papai e seus 10 irmãos já trabalhavam. Alguns já haviam casado e não moravam em Belo Horizonte, mas ainda havia muita gente morando na mesma casa. No final da tarde, eles chegavam do trabalho e ficavam na varanda (não havia televisão nem computador para atrapalhar), batendo papo. A prefeitura realizava obras na rua. Havia uma valeta funda cavada no comprimento da rua, para troca de encanamento. Várias tábuas foram colocadas como ponte, para dar acesso aos moradores. Certa tarde, estavam papai e os irmãos na varanda, quando avistam tio Amílcar:
– Olha, lá vem o Meneguete!
Se distraíram com a conversa e, quando olharam de novo, tio Amílcar tinha sumido. Procura, procura, de repente, mistério solucionado: sai ele do buraco. Ninguém entendeu como ele tinha caído, mas ele chegou e foi logo explicando:
– Eu resolvi treinar pra cego. Aí, vim de olhos fechados para ver se acertava a tábua, mas errei.
Felizmente, nunca precisou concluir o treinamento, enxergou direitinho até o fim da vida.
Anos mais tarde. Já em Brasília, trabalhando no Banco do Brasil. O telefone, que ficava em uma mesinha atrás da mesa dele, tocou. Ele deu um impulso na cadeira para atender, mas as rodinhas travaram e a cadeira quebrou. Ele caiu para trás com cadeira e tudo. Os colegas, assustados, viram quando ele, deitado no chão, passou a mão no telefone e falou, com a maior calma:
– Banco do Brasil, boa tarde!
No dia em que eu fiquei sabendo que estava grávida de gêmeos, recebi muitos telefonemas. As pessoas sugeriam nomes, davam parabéns, aquelas coisas esperadas. Mas ele:
– Menina, eu falei para você não sentar perto da máquina de xerox!
E o bigode. Ele cultivou um bigodinho a vida toda. Um dia, foi ao barbeiro, que raspou o supracitado. Ele ficou arrasado. Mas o pior foi que ninguém notou a falta, nem tia Nair. Já bem no final da vida, precisando de ajuda para respirar, certa noite aquele negocinho que fica no nariz soltou e ele acordou com o objeto estranho dentro da boca. E comentou com meu pai:
– Quando acordei com aquele negócio na boca, levei o maior susto. Pensei que tinha engolido meu bigode!
Há uma história dele e do papai que é mais do que hilária. Os dois foram ao jantar de posse de um diretor do Banco do Brasil. O lugar deles ficava bem de frente para o do diretor, cujo nome não citarei. Na hora da solenidade, um locutor chegou por trás do diretor, com um microfone preso no pedestal. O cara começou a tentar tirar o microfone para entregar ao diretor, mas estava preso. Ele foi mexendo, puxando, fazendo cada vez mais força. Como estava de costas para tudo isso, o diretor nada viu. De repente, o microfone soltou e bateu com a maior força na boca do locutor. Tio Amílcar e papai caíram na gargalhada. Sabe aqueles acessos de riso incontroláveis? Pois foi assim. E continuou durante todo o discurso do diretor, que olhava para eles com cara cada vez mais brava. Quando um ia conseguindo se controlar, o outro dava uma sacudidinha, aí os dois caíam na gargalhada de novo. O diretor acredita até hoje (se é que ainda não morreu) que estavam rindo dele. Desnecessário dizer que nenhum dos dois conseguiu qualquer promoção enquanto o homem ocupou o cargo. Mas se divertiram a valer.
Depois que se aposentou do BB, tio Amílcar trabalhou vários anos em outro banco. Certa vez, foi levar documentos na residência do presidente. Saiu do elevador e viu que vinha um homem em sentido contrário. Se afastou e, com toda educação, falou:
– Tenha a bondade.
O homem também se afastou. Ele ia, o outro também. Ele se afastava, o outro também. Depois de certo tempo ele se deu conta de que estava diante de um espelho!!!!!!!!!
Uma das coisas de que mais sinto saudade é do jeito que ele contava os “causos” dele. O tom de voz poucas vezes se alterava. Mas ele representava, fazia os gestos amplos com os braços. Por causa disso, quebrou o encosto de duas cadeiras na casa dos meus pais. Toda vez que chegava, ia logo perguntando:
– Qual é a mais reforçada?
Papai é muito parecido com ele. Não só no físico, mas também no modo de ser. Para os dois, a refeição é um dos melhores momentos do dia. Estávamos em um restaurante, uma churrascaria. O pratinho dos dois, como sempre, bem organizado. Com as comidinhas separadas, as carninhas em um canto, tudo direitinho. E eles não tinham a menor pressa de concluir a refeição. Aliás, tio Amílcar estava no meio de um caso. Contando animado o que tinha acontecido. Não tenho a menor ideia do que era, mas, a certa altura, ele levantou o prato para demonstrar o que tinha acontecido. O garçom que passava atrás dele levou embora o pratinho tão caprichado. Outra pessoa teria se irritado, chamado o cara de volta, pegado o prato. Tio Amílcar se limitou a ver o humor do momento e ficar sentado, se sacudindo de tanto rir. Depois, pegou outro prato e, na maior calma, começou a refeição de novo.
Mamãe foi operada. Ele foi visitar, e entrou no elevador com um outro homem, que, por coincidência, ia para o mesmo andar. Ficaram logo de frente para a porta. Pararam no andar, mas a porta não abriu.
– Acho que está com defeito.
Voltaram ao térreo. A porta abriu. Subiram de novo, não abriu. Depois de três vezes, descobriram que a porta que abria no andar era a do fundo do elevador. Muita gente passa por esse tipo de “vexame” e esconde. Tio Amílcar fazia questão de contar, para rir com todo mundo.
Ele e tia Nair tiveram três filhas: Ângela, Ana e Adriana, todas com Maria depois. Falam ao mesmo tempo e riem muito. Os tios foram fazer um teste de audição. A médica informou a ele que estava tudo bem com os sons graves, mas que ele não estava ouvindo os agudos muito bem. No entanto, ela prescreveria um aparelho que ia corrigir completamente o problema. Ele retrucou:
– E quem disse para a senhora que eu quero ouvir? Quando minhas Marias se juntam, é melhor não ouvir sons agudos.
Ainda haveria muito a contar sobre meu tio. Muitos “causos”. Na última vez em que o vi, na véspera do dia em que ele foi para a UTI, não entendi nada do que ele me falou. Segurei a mão dele, e ele ficou balbuciando coisas que ninguém entendia. Mas a expressão no rosto dele era de quem estava contando os “causos”. Falava algum tempo, depois dava uma risadinha. Apesar de toda a vontade que eu tinha de chorar, sabendo que era a despedida, eu ria também. Foi assim que dissemos “até daqui a um tempinho”: ele contando piadas que eu não entendia, e eu rindo com ele, sabendo que, embora eu não entendesse, elas eram hilárias.

HILÁRIO (5) – O papa-móvel

Nossa família Moraes Ziller tem, nos últimos tempos, precisado se adaptar à crescente dificuldade de locomoção do papai. Isso não tem nada de hilário, a princípio, mas o papai tem uma capacidade praticamente ilimitada de transformar qualquer situação em piada. Quando a piada não é muito boa a gente tem uma risada específica, forçada, e aí fica engraçado também.
O caso é que ele sofre muitas dores, por causa de artrose avançada nos quadris e joelhos, e também vários problemas na coluna. Com a dificuldade de locomoção, a cada nova viagem a gente descobre que precisava ter feito alguma coisa que nunca tinha feito antes, como, na reserva do hotel pedir quarto especial, no check-in avisar à companhia aérea que ele precisa da cadeira de rodas para se deslocar pelas grandes distâncias do aeroporto, etc.
Isso posto, vamos ao hilário.
Era dezembro de 2007, e fomos a Orlando.

 Todos se comportaram muito bem, inclusive as crianças. Papai andava o tempo todo nos parques, mas cada dia sentia mais dor. À medida que os dias passavam, a gente precisava fazer mais e mais paradas para ele se recuperar um pouco. As paradas não eram contratempos, todo mundo curtia ficar sentado um pouco, batendo papo, inclusive porque Daniela estava voltando para casa depois de morar dois anos na Califórnia, e Flávia estava terminando o período de 6 meses de trabalho no Magic Kingdom. Ela dirigia o barco do Jungle Cruise!!!!! A gente tinha muita coisa para conversar.

Diante do incômodo cada vez maior que o papai sofria, fomos ver o preço para alugar uma cadeira motorizada, mas ele achou que era muito caro. Se fosse para um de nós, ele teria alugado desde o primeiro dia, mas resiste ao máximo quando se trata de gastar dinheiro com ele mesmo. Hoje já sabemos que, para ele, o aluguel da cadeira tem que ser computado junto com o ingresso do parque, mas, em 2007, isso ainda não fazia parte da nossa realidade. Como já falei, a cada dia ele sentia mais dor, ficava mais desconfortável. Andava apoiado no carrinho da Fefê.
Uma noite fria, encontramos eggnog para vender em um parque!!!! Que felicidade! Estava uma delícia. Não estava muito forte, o toque suficiente de rum para aquecer a gente sem deixar ninguém tonto. Papai, mancando apoiado no carrinho, Cristina segurando o eggnog dele. Ela perguntou:
– Pai, o que o senhor prefere: apoiar no carrinho ou levar o eggnog?
Sem nem pestanejar, ele respondeu:
– Prefiro o eggnog.
Ainda não estava tããããão ruim a ponto de recusar a bebida gostosa. Mas, um dia, a coisa atingiu o ponto máximo. Na foto abaixo, ele não está, absolutamente, mal humorado (isso não faz parte da natureza dele, acho que nunca o vi mal humorado), estava com dor, coitado, e não encontrava posição para assistir o show dos carros.

 No dia seguinte, ele sucumbiu e resolveu gastar o dinheiro dele com ele mesmo. Alugou seu primeiro scooter. Lembra daquele negócio de “o primeiro a gente não esquece”? Garanto que é a mais pura verdade. Jamais qualquer dos presentes esquecerá o que aconteceu quando ele pegou o negócio para dirigir.
O funcionário do parque explicou tudo em inglês, claro. Mas Albiléo e inglês são como água e óleo: não se misturam. Não havia segredo, a não ser um que descobrimos depois: há duas velocidades – tartaruguinha e coelhinho. E ele estava no coelhinho.
Ele dava um toquinho no acelerador e o trem disparava. Lá íamos todos nós correndo atrás dele. Ou então ele andava bem devagarinho e a gente o ultrapassava. Ao mesmo tempo, a gente não sabia o que fazer. Ficava todo mundo em volta? Atrás? Na frente? Como se comportar na companhia de uma cadeira motorizada?
Sem saber o que fazer, começamos a rir. E lá ia o papai. Disparava e parava. Enfim, alguma mente superior descobriu que, se usasse a tartaruga, a coisa fluiria melhor. Ele conseguiu dominar os elaboradíssimos métodos de controle do scooter – uma alavanca na mão direita e outra na esquerda.
Aí, começou a festa. Como estávamos todos em volta dele, parecia uma procissão. E ele começou a fazer o sinal da cruz e abençoar as pessoas, falando umas coisas parecidas com missa e terminava:
– A-mém!
E ficou batizado: o papa-móvel!
As pessoas que passavam também começavam a rir daquele monte de gente rindo de chorar e do homem mais bem-humorado que uma cadeira de rodas já carregou.
Sérgio conseguiu captar bem o momento:

Repare na mão dele: está fazendo o sinal da cruz, e falando as coisas dele. Pena que Cristina não apareceu, ela e Marcos devem ter corrido ao banheiro para evitar um desastre. (Ela esclareceu: estava na frente, filmando. Ou seja, está tudo registrado, embora o filme esteja, assim, meio sacudido pelas risadas dela.)
Depois que tudo se acalmou, seguimos para as atrações. Papai não vinha dormindo bem, por causa da dor, então estava com muito sono. A verdade é que ele tem imensa facilidade para dormir. Em determinado momento, alguém falou com ele e ele não respondeu. O scooter foi seguindo, sem qualquer alteração na direção ou na velocidade. Corremos e o ultrapassamos e vimos o impensável: papai estava dormindo no volante!!!!!!!!!!!!!
Meu pai e minha mãe nos ensinaram uma coisa muito boa: nesta vida, quase tudo pode ser encarado de forma negativa – papai precisa de uma cadeira motorizada – ou visto como oportunidade para novas experiências, novas alegrias, novas brincadeiras e novos motivos de risada.