A HISTÓRIA DE ANA (ficção)

Como fazia diariamente, Ana se dirigiu, a passos lentos, para a Catedral. Contemplava o céu azul e pisava com cuidado para não levantar poeira. Port au Prince! Que nome pomposo para uma cidade tão pobre!

Gostava de andar devagar, porque passara manhãs demais impedida de sair de casa. Não podia se dar ao luxo de ficar olhando para o céu. Até fugia de vez em quando, gostava tanto do cheiro da manhã! Mas logo aparecia alguém para brigar com ela e mandá-la voltar ao serviço. Um suspiro de tristeza brotou de seu peito. Ana, porém, não era mulher de ficar chorando o passado. Obrigou-se a pensar no presente, que era muito melhor do que os dias de sua infância e adolescência.

Aproximava-se de seu lugar predileto na cidade: a cruz azul que ficava na frente da Catedral. Sua rotina era a mesma, todos os dias. Antes de entrar, parava ali e conversava um pouquinho com Deus. Contava alguma preocupação, pedia proteção para toda a família. Citava o nome de cada um e a necessidade específica que tinha. Como todos os dias, também, esqueceu de pedir por ela mesma. Tranquila, feliz por não ser obrigada a se apressar, entrou na igreja.

Assim que entrou, percebeu o contraste da temperatura fresca. Nem notara que estava muito quente ao sol. A Catedral estava cheia de gente. Ana se lembrou, então, de que a médica estava lá de novo. Procurou-a com os olhos e logo a encontrou. Ensinava alguma coisa para as pessoas sentadas perto dela. Era bonita, tão bonita! Ana sentiu uma ponta de inveja. Se alguma vez fora bela, a vida se encarregara de levar embora todo traço bonito. Ah, mas a médica… olhos azuis, pele tão clara! Brasileira, como os jogadores e os soldados que tentavam ajudar o país a se desenvolver. Será que iam conseguir?

Nesse exato momento, Ana olhou para a médica. Os olhos das duas se encontraram e imediatamente o mundo inteiro tremeu como gelatina e caiu sobre as duas.

Era uma família semelhante a milhões de outras espalhadas pela imensa porção miserável deste mundo: mais pobre do que a própria pobreza. À semelhança de milhões, também, a mãe de Ana passara grande parte da vida com filho na barriga, trabalhando duro na casa dos outros para levar pelo menos pão para alimentar os filhos já nascidos. Depois de esfregar de cima a baixo a casa da patroa, de cozinhar para outra família, de lavar e passar roupa alheia, voltava para seu barraco acarpetado de terra batida e tentava cuidar dos muitos filhos, esperando o marido chegar, bêbado como sempre.

No primeiros tempos, batia nela. Parou, não por bondade: depois das surras, ela não ia trabalhar e ele tinha que se virar para comprar uma gororoba qualquer para a criançada comer. Assim, o dinheiro da bebida ia embora, e o dono do bar não vendia fiado mais. Bêbado, mas não burro, deduziu que era melhor não bater na mulher para ela poder trabalhar.

Dezoito filhos. Cinco meninos e 13 meninas. Ana era a mais velha, trabalhou duro praticamente desde que aprendeu a andar. Primeiro, cuidava dos irmãos. Nada de escola para ela. Invejava as meninas que passavam todos os dias por seu barraco, rumo ao colégio. Assim que entendeu que um dia, provavelmente, se casaria e teria filhos, fez uma promessa a esses futuros filhos:

– Prometo a vocês que vou ter poucos filhos e que todos irão à escola!

Tinha, talvez, 10 anos, mas a promessa foi feita com seriedade.

Ana tentou se mover. Não conseguiu. Sentia uma dor imensa na perna. Na verdade, o corpo todo doía, mas a dor da perna era terrível. Tentou gritar, mas não conseguiu. Na verdade, mal conseguia respirar. Tudo escuro, só uma fresta de luz perto da cabeça. O que tinha acontecido? Seria um derrame? Onde estava? Para onde tinha ido a médica? Começou a entrar em pânico, e desmaiou.

CONTINUA… (A HISTÓRIA DE ANA 2)

2 comentários sobre “A HISTÓRIA DE ANA (ficção)

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