PORQUE VOU CELEBRAR O NATAL

Escrevi o texto abaixo no dia 7 de dezembro de 2004, um dos dias mais tristes da minha vida. O que descobri naquele dia continua valendo hoje para mim, de modo que o coloco mais uma vez em circulação, agora no CALENDÁRIO DO ADVENTO.
PORQUE VOU CELEBRAR O NATAL
Um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (Isaías 9.6)
Em janeiro deste ano, eu, Sérgio, nossas filhas e meus pais havíamos acabado de almoçar em um de nossos restaurantes prediletos, em Camboriú. Pagamos a conta e ficamos olhando um mapa da Itália na parede, relembrando uma viagem que fizemos. O celular de minha mãe tocou. Tio Amílcar deu a notícia triste que temíamos: tio Adelchi havia falecido. A tristeza foi grande. Não dava tempo para ir a Belo Horizonte para o enterro e meu pai, com muita serenidade, resolveu terminar as férias e depois ir até lá para visitar a cunhada e os sobrinhos. Foi este o primeiro fato doloroso de um ano muito duro. 
Voltamos para Brasília e logo perdemos mais três pessoas muito amadas: seu Osvaldo, dona Elvira e dona Maria Luiza. Irmãos nossos, companheiros de jornada em nossa igreja. Cada perda foi uma grande dor em meu coração. No dia seguinte ao falecimento de dona Maria Luiza, morreu o pai de meu cunhado, Rodrigo. Foi um choque, pois ele era ainda novo e sofreu um infarto fulminante. Isso aconteceu em julho.
Depois de pouco mais de dois meses, acordei um domingo com uma notícia terrível, pior do que todas as anteriores: Carolina havia morrido, em toda beleza e energia de seus 24 anos. Um mês depois, outro priminho, o loirinho Gustavo, na semana em que completaria cinco anos. Exatamente uma semana depois do Gustavo partir, meu sogrinho querido sofreu um AVC. Mais uma semana e Deus o levou.
Eu havia combinado com a Zenaide que faríamos juntas, em minha casa, a ceia de Natal. Com os pensamentos e emoções em turbilhão, pensei: “Não vai mais ter ceia, nem comemoração, nem festa, nem vou comprar presentes este ano”. Depois, pensei mais um pouco e descobri que estava indo pelo caminho errado. Ainda não conversei com a família, não sei como faremos no Natal, mas sei que em meu coração, vou celebrar este ano mais do que em todos os que o precederam.
Neste ano de tanta dor, eu experimentei a verdade contida no versículo que coloquei acima. Posso dizer, como Jó, que antes eu conhecia de ouvir falar, mas agora meus olhos viram.
Sei, sem sombra de dúvida, que Jesus é MARAVILHOSO. Poderia escrever um livro com os detalhes que ele organizou e as bênçãos que derramou em cada uma das situações acima. Por exemplo, Carolina nunca permitira que Bárbara dormisse fora de casa, mas deixou na noite em que morreu. Gustavo sofreu a embolia pulmonar antes de entrar no avião que o levaria para São Paulo. Se isso acontecesse durante o vôo ele teria morrido nos braços dos pais sem que eles pudessem fazer nada para aliviar o sofrimento do filho.
Vi também o CONSELHEIRO, que deu discernimento ao Amílcar para pedir exames no corpo da filha, cujos resultados consolaram muito o coração deles e de todos que a amamos (a morte não acaba com o amor). Esse mesmo Conselheiro guiou os passos do Rodrigo nas providências após a morte de seu pai, quanto a inventário e divisão de bens. Foi Jesus, ainda, que orientou Marta, minha cunhada, a ligar primeiro para a UTI Vida e só depois para os irmãos.
O DEUS FORTE me levantou ontem, depois que eu falei que não agüentaria ir a mais um enterro. Através da voz carinhosa da minha amiga Bernadette, ele falou: “Vai aguentar, sim. Deus vai te fortalecer. E eu vou ficar com você o tempo todo” (nunca vou esquecer esse carinho da Bette). Durante todo o ano, Sérgio enfrentou dificuldades tremendas na empresa, mas o Deus Forte o fez continuar lutando e, ontem, o capacitou a dar um testemunho lindo no culto de despedida de seu pai. Esse mesmo Jesus fortaleceu Heloísa e ela cantou um hino sobre o amor de Deus diante do caixão de seu filhinho. E Hércules, diante do mesmo caixãozinho, encontrou em Jesus forças para convidar quem ainda não entregou a vida a Deus para fazê-lo. É ainda o Deus Forte que vem segurando os parentes mais próximos de cada uma dessas pessoas que faleceu.
Ah, mas ele é também o PAI DA ETERNIDADE! E, por isso, sabemos que vamos nos reencontrar um dia. Essa certeza consola, dá força, faz prosseguir no caminho do Senhor. Não sei como será na eternidade, mas creio que tenho o direito de sonhar encontrar meu sogro e falar: “Oi, Salim!”, e ele responder: “Oi, Soraia!”. E depois ele vai dizer, como me disse tantas vezes: “Estava com saudade, minha jóia”. Quem sabe estará fazendo uma peixada para o almoço…
E, sendo PRÍNCIPE DA PAZ, Deus nos dá tranqüilidade para continuar com a vida, para prosseguir dando um passo a cada dia. Choro, e muito. Ainda vai demorar para o pranto acabar, mas uso as palavras da Zenaide e depois do Hércules diante do corpo de seus filhos: “Não estou desesperada”. Nem desanimada. Sofrida, sim, mas nunca sem a paz que excede todo entendimento.
Por tudo isso, vou celebrar o Natal. Se Jesus, nosso Emanuel, Deus conosco, não tivesse vindo, não teríamos forças para prosseguir. Mas ele veio. Nasceu como bebê, morreu e ressuscitou. Não importa o que vai acontecer no dia do Natal, se vamos cear, se vamos ter presentes, se vou conseguir cantar a Cantata com o Coral. O que sei é que, em meu coração, mais do que em todos os anos anteriores, estarei agradecendo a Deus por ter vindo e por estar sempre presente em minha vida, pois sem ele eu não teria sobrevivido a tantas perdas.
PS: Hoje, 9 de dezembro de 2010, conto o que aconteceu naquele Natal. Nossa família Faria não conseguiu realizar o Amigo Oculto. Meu sogro era quem mais curtia, e até hoje não tivemos coragem de voltar a trocar presentes. De resto, fizemos tudo. Teve cantata. Eu, Sérgio, dona Marlene e Amílcar cantamos e choramos. Na plateia, muitos choravam conosco. Zenaide preferiu fazer a ceia na casa dela mesmo e nós, os Ziller Faria, fizemos aqui em casa, como sempre. Rimos, comemos, conversamos, lembramos e choramos. Trocamos presentes. Acima de tudo, agradecemos a Deus a vida. Confiamos no amor e na soberania dele. Continua assim até hoje… Só que já não choramos tanto.

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