CHUVEIRO QUENTE

O livro “Refúgio Secreto”, que conta a história de Corrie Ten Boom, foi lançado na década de 70. Leitora ávida, logo devorei a saga heroica de Corrie e sua família. Em uma das cenas que mais me marcou ela narra a crueldade extra dos carcereiros. De vez em quando levavam as prisioneiras para o banheiro. Eram obrigadas a ficarem todas nuas sob uma longa fila de chuveiros. Por mais frio que estivesse, eles abriam a água gelada em cima delas. Às vezes, para se “divertir”, eles fazia sair água pelando. Alternavam a água gelada e quentíssima.

Desde que li o livro, agradeço a Deus quando tomo banho no meu chuveiro gostoso, com a temperatura da água controlada por mim. Gosto de banho bem quente. No sábado, levei quase duas horas no processo elaborado a que dou o nome de banho. Não atirem pedras, defensores da natureza! Não fiquei todo esse tempo com a água correndo. Há muitas atividades envolvidas nesse processo: esfoliação, depilação, massagem, etc, etc, etc. A água do planeta não foi toda consumida por minha pessoa. Mas, quando a utilizei, saiu na temperatura que escolhi, durante o tempo que determinei. E, como sempre, quando ela caiu sobre mim eu suspirei:

– Que delícia! Obrigada, Deus, pelo meu chuveiro gostoso!

O que terá a ver o livro de Corrie com meu banho de sábado?

Ontem de manhã, estava ainda deitada, quando meu telefone soou com o alerta de mensagem. Oba! Flávia online! Conversar com ela é uma raridade, então dou pulos de alegria. Ela me contou que na semana passada foi aniversário da líder da equipe dela lá no Camboja. Eles programaram uma atividade super especial: um dia hospedados em um hotel, com direito a chuveiro com água quente.

– Como assim, filha?

– Na base da JOCUM não tem chuveiro nem água quente. O banheiro é uma privada, uma pia e uma mangueira.

Eu não sabia disso. Minha filhinha, aquela em quem eu dei banho quentinho desde que nasceu, que nunca gostou de água fria, que pouco entrou em nossa piscina exatamente por isso, para quem eu esquentava a água do banho nas férias em Ilhéus, quando choveu demais e a casa que alugamos não tinha chuveiro elétrico, hoje está feliz lá do outro lado do mundo, tomando banho de mangueira todos os dias!

Fiquei com orgulho dela. Até hoje não tinha me contado, e não contou para se queixar. Aliás, ela só reclama (pouco) da comida. Todo o restante (incluindo o rato no quarto) ela comenta com humor e simplicidade.

Quando eu penso em tudo que ela deixou aqui para ir atender o chamado de Deus, eu penso que quando eu crescer quero ser igual a ela. E sou grata a Ele por não ter permitido que eu estragasse essa pessoa maravilhosa que ele confiou a mim e ao Sérgio.

PAPAI

Quando aquele navio, o Costa-sei-quê-lá, encalhou, eu e mamãe assistimos uma entrevista com uma família que estava a bordo. Os pais se separaram dos filhos na confusão, e acabaram sendo colocados num barco salva-vidas com o filho, sem saber onde estava a filha. Acabou tudo bem, se reencontraram em terra. Mamãe falou:

– Eu talvez entrasse no barco sem um de vocês, mas seu pai não entraria de jeito nenhum.

Também tenho certeza disso. Na verdade, quando assisti a entrevista com a mamãe, já tinha visto em outro programa, e fiquei meio chocada com a atitude do pai. Vai ver que é assim que funciona na maioria das vezes – asseguraram a ele que alguém tomaria conta da filha e ele confiou nos responsáveis pelo resgate – mas não é essa a minha realidade.

Papai tornou muito fácil para nós entendermos o Deus Pai que se doa inteiramente pelos filhos. Ele sempre foi assim. Vou do Alfa ao Ômega, para mostrar o que quero dizer.

Podemos colocar como Alfa um passeio que fizemos a Marataízes, quando eu tinha pouco mais de 1 ano. Não existia filtro solar e somos todos mais alvos do que a neve, pelo menos por fora. A areia estava quente e eu não queria andar. Com pena de mim, papai me colocou nos ombros e me carregou descalço por um longo trecho. No dia seguinte, tinha bolhas tanto na sola quanto no peito do pé, nem conseguia andar.

Coloquemos o Ômega como a semana do meu casamento. Acordei no meio da noite com sede. Como de costume, gritei:

– Pai! Pai!

Num instante, lá estava ele no meu quarto.

– O que foi?

– Estou com sede.

Ele foi à cozinha pegar minha água. Eu dormi. Acordei de manhã e o copo d’água estava na mesinha da cabeceira, como aconteceu milhares de vezes durante minha vida.

Entre o Alfa e o Ômega, ele se doou o tempo todo e de todas as formas possíveis pelos filhos e pela esposa. Estabeleci o Ômega como o meu casamento, mas, claro, não parou lá.

O fato é que, agora, a situação se inverteu. Nós temos que cuidar dele. Fato que não o deixa à vontade.

No início de junho, quando fomos a NY, eu fui com a missão específica de cuidar de nossos pais. No primeiro dia, mamãe toda hora se oferecia para empurrar um pouco a cadeira de rodas ” para você descansar”. Claro que eu não ia deixar. E os dois ficavam repetindo:

– Coitada de você! Poderia estar passeando com o pessoal, está aqui cuidando de nós!

Eu repetia que estava achando tudo excelente, estava curtindo de montão. Afinal de contas, poucas pessoas têm o privilégio de levar seus pais a NY e fazer tudo que eles querem. E milhões que não os têm mais dariam tudo para “sofrer” o que eu estava “sofrendo”.

No final do dia, quando chegamos ao hotel, eu fiquei valente e decretei:

– Amanhã, não quero ouvir nenhuma vez mamãe se oferecer para empurrar a cadeira. Eu simplesmente NÃO vou deixar. E também não quero ouvir nenhum “coitada da Cláudia”. Estou radiante nesta viagem. Se não estivesse aqui com vocês, estaria sentada no meu escritório trabalhando. O que será que eu prefiro? E não estou achando nada ruim!

Mamãe lembrou, então:

– É, ele queimou os pés te carregando…

E eu:

– Pois então, enquanto eu não ficar sem poder andar, com os pés queimados, é sinal de que ainda nem comecei a pagar a dívida. E tenho dito!

Rimos, e eles me obedeceram. Não falaram mais coitada nem teve oferta para me substituir no controle da cadeira.

Como eles são muito educados, agradecem todas as vezes que fazemos alguma coisa por eles. Mas o fato é que estou apenas retribuindo o que recebi. E meu débito ainda é extremamente elevado, uma dívida impossível de ser paga. Então o diálogo é:

– Muito obrigado, de verdade!

Eu:

– De nada, mas eu ainda não queimei os pés.

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