RUNNING ou SOARING?

Acordei hoje desanimada. Há tempestades demais na minha vida. Eu poderia dedicar todo este post a falar sobre elas. E ficaria bem longo. Mas prefiro falar de outra coisa.

Logo que me acordei, lembrei de um romance que li. A heroína, sempre que tinha algum aborrecimento, saía para correr dizendo que ia “take it out of my system”. Algo como tirar do meu ser. Como esse romance foi um dos motivadores para o início de minhas corridas, exatamente por causa dessa expressão, resolvi que ia correr para ajudar o desânimo a sair do meu “system”.

Antes de me levantar eu oro e leio a Bíblia, praticamente todos os dias. Então, estava nesse momento de meditação quando meu celular acusou uma mensagem. Era a Dani. Para resumir, Flávia está lá no Camboja com 2 dólares, sem conseguir tirar o dinheiro que está no Visa Travel Money. E nós não temos dinheiro para mandar para ela hoje. Simples assim. Dani movimentou a família, em menos de 20 minutos já tinha aparecido o dinheiro. Mas eu pensei: “Mais uma coisa para me preocupar!”.

Eu só gosto de me exercitar ouvindo música. E lá fui eu. Com as tempestades e tudo. Corri meia hora, como ontem. No início, as tempestades estavam comigo, mas foram saindo do meu “system”, ficando no lugar onde devem ficar. Comecei a olhar o céu azul, com algumas nuvens, enquanto Vencedores por Cristo cantava no iPod: “As nuvens brancas do céu … foi por acaso, ou foi por amor que meu Deus a mim se revelou?”. O exercício e as palavras de Deus através da música foram acalmando meu coração.

Assim que eu parei de correr e passei a andar para voltar para casa, começou a tocar, não por acaso, mas por amor, uma de minhas músicas prediletas: Still, do Hillsong. Nossa igrejas cantam, uma tradução muito boa, mas traduzir música é uma tarefa inglória. As ideias originais dificilmente cabem na melodia com as palavras da outra língua, de modo que grande parte da mensagem se perde. Assim, vou colocar aqui o que Deus me falou quanto às tempestades que me assolam, fazendo a tradução da letra, sem pensar em melodia, ritmo ou métrica. Só na essência da mensagem contida na poesia em inglês:

Esconde-me agora
Sob Tuas asas
Coloca-me
Dentro de Tua mão poderosa

Quando os oceanos se levantam e os trovões ressoam
Planarei contigo bem acima da tempestade

Pai, és Rei sobre a tempestade
Aquietar-me-ei e saberei que és Deus.
Encontra descanso, minha alma,
Apenas em Cristo
Conhece o poder dele
Na quietude, e confia
Quando os oceanos se levantam e os trovões ressoam
Planarei contigo bem acima da tempestade
Pai, és Rei sobre a tempestade
Aquietar-me-ei e saberei que és Deus.

Fiz o iPod ficar rouco de tanto repetir a música até chegar em casa. As tempestades ainda estão por aí. Mas, no momento, estou planando bem acima delas, com aquele que não deixa nada para o acaso, mas faz tudo por amor.

28) O MELHOR NATAL

Ainda no início de agosto e já pensando em Natal. Aliás, tenho pensado neste Melhor Natal desde o início de julho, quando o rev. Wildo foi submetido à cirurgia que resultou em complicações que colocam em risco a vida dele.

Na verdade, ao postar no Facebook, eu sempre digo rev. Wildo, porque ele é reverendo, mas, para mim, é o Wildo. Eu o conheci através do Henrique, no início da década de 1980. Era um jovem com um grande sonho. Continua jovem de coração e com grandes sonhos. Mas, naquela época, a grande obra que ele faz ainda era um projeto. Acho que ele nem imaginava a projeção que tem hoje.

Quando eu penso no Wildo, duas características me vêm à mente: olhos doces e voz tranquila. Sei que ele deve ter seus momentos de ira, mas, graças a Deus, nunca os vi. Conheço o homem que olha as pessoas com amor.

Ainda muito jovem, o coração dele ardeu pelos sem-teto. Começou a distribuir sopa aos mendigos de Anápolis, à noite. Aos poucos, foi surgindo uma equipe para o ajudar. Não era apenas sopa que ele queria dar. Queria alimentar e limpar o corpo e apresentar a mensagem transformadora de Jesus, que poderia por fim à situação triste em que aqueles homens viviam. Daí surgiu um trabalho que se chamava Sopa, Sabão e Salvação. Muitos homens foram alcançados pelo cuidado daquelas equipes. O trabalho foi crescendo e, para encurtar a história, surgiram as casas de recuperação, onde os homens participam de um programa que os leva a se reintegrarem na sociedade. Há muitos anos a organização se chama Missão Vida.

Wildo não é machista. Mas uma vez ele me falou que seria complicado trabalhar com homens e mulheres ao mesmo tempo. A sopa ia para todos, mas as casas de recuperação recebem apenas homens.

O que tudo isso tem a ver com meu melhor Natal e, além do mais, com a Igreja Metodista da Asa Sul?

Bem, durante algum tempo – a meu ver curto demais – nossa igreja abrigou, nas sextas-feiras, a distribuição da sopa. Chegavam homens em estado calamitoso. Imundos, famintos, feridos no corpo e na alma. Tomavam banho, recebiam sopa e ouviam a Palavra de Deus.

Não me esqueço de um senhor. Eu fazia o cadastramento dos presentes, e havia um pequeno questionário. Perguntei onde ele costumava dormir. Ele me disse: “Onde me dá sono”. Onde ele comia: “Onde me dá fome”. Não tinha absolutamente ninguém neste mundo. Nenhuma raiz. Enquanto durou a distribuição da sopa, ele esteve lá todas as semanas.

Quando chegou dezembro, um desafio: Vamos fazer uma Ceia de Natal para eles, no dia 24 de dezembro! Dona Cleusa, a chefe da cozinha, topou na hora. E começou a planejar o cardápio. Foi uma trabalheira. Nas fotos abaixo, dá para ver que havia muitos mendigos famintos apreciando a Ceia maravilhosa preparada por dona Cleusa e seus fieis escudeiros. Para coroar, uma torta, igual à que ela faz para as festas da nossa igreja. Depois de comerem à vontade, os mendigos foram para o templo, onde os primeiros bancos estavam reservados para eles, e ouviram a Cantata de Natal.

Não lembro o que cantamos, mas jamais esquecerei a expressão daqueles rostos nos contemplando como se fôssemos anjos. Com certeza, foi meu melhor Natal. E não teria acontecido se o Wildo, uma noite, não tivesse saído com uma panela para distribuir sopa quente aos mendigos que vagavam pelas ruas de Anápolis.

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