O PRIMEIRO SPA A GENTE NÃO ESQUECE

Amo viajar com o Sérgio. Digo que ele é meu melhor companheiro de viagem. Talvez por isso, sempre adiei a ida a um spa. Não faz o gênero dele.
Em junho do ano passado, porém, eu estava desesperada vendo o peso subir cada vez mais, sem conseguir tomar uma atitude eficiente para reverter o processo. Decidi, então, passar duas semanas em um spa. Não estava segura da minha decisão. Meu tio Amílcar estava muito doente, internado, e eu não queria ficar todo esse tempo longe de Brasília. Sabia, no fundo, que estávamos vivendo os últimos dias dele entre nós.
Na véspera de minha partida para o spa, fui ao hospital visitar meu tio. Não consegui entender uma palavra sequer do que ele tentou me dizer. Saí de lá chorando, cheguei em casa e falei que só queria dormir para esquecer o que tinha visto. Meu lindo tio, um “gatão”, estava magrinho, sofrido, doente…
Meu vôo era às 11:00 e, como moro perto do aeroporto, acordei cedo, arrumei a mala, me aprontei e… perdi o avião. Minhas filhas começaram a rir de mim, Sérgio também:
– É, gente desacostumada a viajar é assim mesmo.
No fundo, eu tinha enrolado para sair de casa. Meu coração não estava no spa.
Fomos ao balcão da companhia. Todos os vôos lotados naquele dia. Enquanto Flávia e Daniela me colocavam em lista de espera, meu telefone tocou. Tio Amílcar fora transferido para a UTI. Empaquei. Não queria ir. Sérgio também empacou. Fazia questão que eu fosse. Além de saber que faria bem para mim, queria me afastar de uma situação que, claro, me faria piorar da depressão. Mas não consegui partir. Combinei com ele: vou adiar uma semana. Eu sentia que meu tio não poderia sobreviver uma semana naquelas condições. Ou melhorava, ou falecia.
Liguei para o spa, alterei a reserva e voltamos para casa. Como eu previa, meu tio partiu naquela semana. Sexta-feira, ele se foi. No sábado, dissemos adeus em um culto emocionante de gratidão por aquela vida linda. No domingo, pequei o avião para o spa.
Eu creio que Deus cuida dos detalhes de nossa vida. Tudo se encaixou naquela semana. E, ao chegar ao spa, eu era a única hóspede. Brinquei que tinha personal tudo. Personal recepcionista, cozinheiro, garçom, trainer, nutricionista, médica, camareira, etc, etc. Nesses dias, eles cuidavam de mim e eu chorava minha perda. Enquanto me alimentava bem, me exercitava pela manhã, fazia hidroginástica ao sol, como gosto, eu sentia o bálsamo correndo pelas minhas emoções também. Cuidar do físico diminuía um pouco a dor pela perda.
Enquanto estava lá, outra irmã do papai, tia Mandinha, faleceu em São Paulo. Mas os profissionais naquele lugar cuidavam de mim o tempo todo. Houve um dia em que não consegui me levantar. Dormi o dia todo. Eles levaram as refeições ao meu quarto, telefonaram várias vezes para perguntar se eu queria alguma coisa, ofereceram companhia. Mas eu precisava apenas dormir. E foi o que fiz.
Levei na mala um terninho que não me servia há algum tempo e falei que meu objetivo era voltar para casa com ele. E alcancei meu objetivo. Na verdade, alcancei o objetivo físico, mas o maior benefício que recebi naquele lugar foi a restauração emocional. E, mais uma vez, certifiquei-me de que físico, emocional e espiritual precisam, necessariamente, caminhar de braços dados.
Ah, mas fiquei sozinha poucos dias. Logo chegaram outras hóspedes, e nos divertimos muito juntas. Foi uma experiência inesquecível… A saudade dos tios não passou. Dói ainda lembrar, principalmente, do tio Amílcar, que morava aqui em Brasília também, e sempre esteve muito presente em minha vida. Mas os dias no spa amenizaram o primeiro choque e me deixaram pronta para voltar mais forte para prosseguir.

SOBRINHAS – ZI

 
Tirar foto em avião é meio brega, né? Mas estávamos tão felizes que não conseguimos nos controlar… Íamos para Orlando, comemorar o aniversário do meu pai. Segundo minhas contas, a quarta vez que eu ia com a Zi.
Essa minha sobrinha sabe ser charmosa. Desde bem pequena, sabe combinar roupas, jogar uma echarpe aqui, um cinto ou uma bolsinha ali, e criar um look especial. Ao contrário da tia, que veste a roupa exatamente como saiu da loja, com os acessórios que a vendedora aconselhou.
Uma vez, a Zi devia ter uns três anos e estava aqui em casa. Meio gripadinha, com o nariz entupido, ela se deitou na minha cama. De repente, se queixou:
– Ai, tia, meu nariz está tão fraquinho!
Até hoje ela é assim, expressa coisas comuns de formas diferentes. Não se prende ao que todo mundo fala e faz.
Isabela foi uma bebê difícil. Chorava muito, só ficava no colo da mãe dela, não aceitava ninguém mais. Quando começou a crescer, em vez de ficar mais fácil, foi ficando mais difícil: levada da breca. Aprontava todas. Não vou revelar a história dos saquinhos de plástico escondidos no armário porque ela poderia cometer um “tiacídio”, mas foi das piores travessuras que já chegaram ao meu conhecimento.
Em todo esse tempo, no meio das piores bagunças, a alegria e o amor que ela sempre demontrou por mim me desarmavam. Como dar bronca naquela coisinha ruiva que abria o maior sorriso na hora em que a coisa ficava feia para o lado dela?
Isabela cresceu para se tornar uma adolescente centrada. Cheia de energia, alegre, pronta para curtir a vida. Sob meus protestos, vai, ano que vem, fazer intercâmbio. De novo: Por que essas meninas não ficam sossegadas em casa, perto da tia?
Isabela está com um problema nos joelhos. Passou por momentos difíceis, escapou por pouco de uma cirurgia. Deve ter tido suas horas de raiva, de revolta, mas nunca em público. Mesmo andando com a ajuda do andador do vovô, estava sempre sorrindo, confiante no tratamento. Tão novinha e tão sensata. Fez todo o tratamento necessário, obedeceu as instruções do médico e, agora, prossegue com atitude positiva para aprender a conviver com o problema incômodo nos joelhos. Um bom exemplo para muita gente mais velha e reclamona.
Em meu texto sobre a Júlia, falei como é difícil escrever só sobre uma gêmea e que eu tentaria separar bem o conteúdo das duas. Mas há uma coisa que as duas fazem, e que eu quero deixar registrado, porque me comove muito.
Eu estava em depressão. Sentia-me descorada. Isso mesmo, sem cor, sem vida. Vi um filme em que, a certa altura, um personagem encontra uma mulher e diz a ela:
You are glowing!
Em um aula na igreja, da qual Zu e Zi participavam, comentei que gostaria que isso acontecesse comigo. Que eu recuperasse meu brilho, que as pessoas que me encontrassem pensassem que eu estava, realmente, transpirando vida.
Desse dia em diante, minhas sobrinhas me dizem, muitas vezes, em momentos especiais:
– Tia Cláudia, you are glowing!
Posso afirmar que, pelo menos nesses momentos, eu realmente brilho de alegria.
Muito obrigada, Zu e Zi!